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No divã do crime: um sintoma patológico social Imprimir E-mail
24-Mar-2010
Violência, esse é o trunfo bastante recorrente para angariar audiência em várias mídias do país. Isso não é por acaso, há sim explicações para espetacularização da transgressão ou necessidade aguçada pelo medo social. Com uma visão mais subjetiva sobre o assunto, iremos visualizar o cerne do problema que perpassa por questões do âmbito psicológico.       

    

O multifuncional, Hélio Pellegrino, médico psiquiatra, psicanalista, militante político e escritor, traz à consciência humana uma riquíssima contribuição em relação à criminalidade sob um enfoque psicanalítico. Inicia seu pensamento fazendo menção a Washington Luiz (1870-1975), que encarava a questão social como caso de polícia. Infere que felizmente o povo brasileiro adquiriu cultura, informação e educação, isto é, ferramentas intelectuais para repensar esse equívoco. Entende a criminalidade como questão social, o crime está para a criminalidade assim como a doença isolada está para a epidemia.


Reflete que: "sempre haverá crime no mundo, porque o homem é, em seu eu, indeterminação e liberdade". Sentimentos esses, misturados à busca constante de novos desejos e ideais. A criminalidade é expressão e reação de uma patologia social, que constitui um sintoma. Portanto, o combate ao sintoma não remove a causa da doença na sua totalidade. Portanto, é puro engano erradicar o crime com a redução da maioridade penal, pois, é uma forma de encobrir a responsabilidade social na sua plenitude.


Fazendo esta associação psico-social, podemos caracterizar a criminalidade como uma forma de protesto, um sintoma gerado por uma patologia social. Ou seja, a criminalidade está para a patologia social assim como a paralisia está para a histeria.


A erradicação da criminalidade por meio de medidas puramente sintomáticas, como a redução da maioridade penal de 16 para 18 anos, é uma tentativa de encobrir a responsabilidade social na produção dessa mesma criminalidade. Uma crise social pode fomentar a criminalidade quando chega a lesar por deterioração os valores sociais capazes de promover a identificação do indivíduo com a comunidade.


Alguns valores como justiça, igualdade, respeito pelo trabalho e pessoa humana devem ser enaltecidos para o bom andamento da vida social. Esses valores, quando considerados por todos, construirão o Ideal de integração do tecido social. Quando não há essa integração, quando os valores que constituem o ideal coletivo são desrespeitados pela injustiça, má distribuição de renda, corrupção governamental, a criminalidade vem à tona denunciando uma estrutura social doentia e perversa.

Com a ruptura do pacto edípico (complexo de Édipo – sentimento da transgressão), há o retorno do recalcado, libertando sentimentos anteriormente contidos como homicídio, incesto, estupro, violência, gerando uma criminalidade como sintoma de patologia social. Mas é também possível romper com o pacto social sem que isso implique a ruptura com a moral vigente, por meio do elenco de valores que constituem o ideal coletivo, protestando não com criminalidade, mas, sim, com ideais de igualdade, fraternidade e justiça.

 

A criminalidade é uma forma enlouquecida de protesto. Enquanto houver uma sociedade que não valoriza e não recompensa as pessoas que nela estão inseridas, a violência terá sempre um espaço nas manchetes de jornal e nas nossas vidas como sintoma de uma sociedade perversa.

 


 

 Referências
PELLEGRINO, H. (1984). Psicanálise da Criminalidade Brasileira: Ricos e Pobres. Acesso em: 14 jun. 07. http://www.cefetsp.br/ed/eso/filosofia/pellegrinocriminalidadecsc.html.

 

 

GUTEMBERG DE LIMA DAVI

 
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Alessandro Glauber

Alessandro Glauber é Engenheiro Eletrônico e de Automação pela UFCG.

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