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50 anos de Bayeux, o que Comemorar? Imprimir E-mail
10-Dez-2009
Diante das comemorações de meio século de emancipação política, o povo de Bayeux sente ainda que o desencanto social - político com as utopias cidadãs perduram ao passar do tempo. A antiga Vila Barreiras que ostenta estatisticamente números consideráveis, com o seu continente populacional, que chega a marca dos 100 mil habitantes, vive a clamar por qualidade de vida. Por isso, o que comemorar com os 50 anos de Bayeux.    


 

A qualidade de vida é um desejo almejado por qualquer cidadão deste país, porém em nossa cidade ainda é um sonho muito longe de ser alcançado. Não quero ser nem um pessimista extremado nem xiita radical, expresso aquilo que é fato inconteste nas ruelas do município. Não podemos ficar rendidos em um regime de censura escamoteada e em pleno sono da passividade ofuscada pelos bastidores do poder.

 

Panorama Político

 

Uma palavra que muitos não sabem nem o próprio significado, no entanto, com certeza a aplicam muito bem: é a tal conveniência, subjetiva ou grupal. A conveniência é o espelho das atitudes, posturas e valores adotados principalmente pela classe política, em abrangência geral e especialmente no caso da cidade do caranguejo. Dois fatos expressivos podem esclarecer essa realidade.

 

Primeiro, é o episódio da aprovação de duas leis de extrema importância para o futuro da cidade. Falo da Lei Orçamentária Anual (LOA) e o Plano Plurianual (PPA), ambos regulamentos aprovados com aclamação por nove dos dez vereadores da Casa Severaque Dionísio, apenas o vereador Nino do PT contestou tal aprovação e não embarcou na política de “Maria vai com as outras”.

 

De acordo com o próprio parlamentar contrário a tais projetos “não tivemos tempo de ler e nem analisar os conteúdos das peças que integram o ciclo orçamentário, como também não implementamos espaços para participação popular”.    

 

A LOA e PPA são peças de planejamento e orçamento estratégicas para implantar investimentos, projetos e ações nas dependências do município nos próximos anos, e que para serem legitimas, como ressalta o Estatuto das Cidades, têm que passarem pelo consentimento popular, ou seja, através de audiências públicas, sessões especiais, participação democrática ou interação com a sociedade. Pasmem todos, tudo isso, a exemplo da própria Lei de Diretrizes Orçamentária, foi assinada e atestadas pela maioria esmagadora dos parlamentares locais que no inicio do ano, após serem empossados prometeram “Fazer a diferença”, “Implantar um gestão participativa”, “Estar ao lado do povo de Bayeux”, enfim.

 

O segundo fato é antecipação precoce da eleição da Mesa Diretora da Câmara Municipal para o biênio 2011 e 2012, que estava tudo certo para permanência do atual presidente Fofinho (DEM), que antes tinha montado o grupo dos “sete independentes” e que hoje se tornou “grupo dos quatro”. Pois bem, depois de ser bombardeado pelas denuncias do caso Bolsa Família, sua permanecia no comando da casa legislativa sofreu forte abalos que cuminou com surpresa vitória do vereador Roni Alencar para comandar os destinos da Câmara a partir de 2011. Roni contou com a ajuda de Célia Dantas, Dedeta, Lico, Cariolando e o Gegê para destronar as futuras pretensões de Mizael Martinho. Na verdade, essa foi uma maquiavélica estratégia de colocar os vereadores no mesmo patamar de igualdade para as futuras eleições e uma indelicada intromissão do poder executivo na esfera legislativa.

 

A lógica é simples, Fofinho é correligionário do atual vice-prefeito, Domiciano Cabral que vem sofrendo retaliações consideráveis por parte do chefe do executivo local, depois de uma contenda natural com o prefeito J. Júnior, visto isso, mediante sistemática exonerações de correligionários e amigos do vice-prefeito dos cargos públicos ligados à Prefeitura. Já Roni Alencar é da base de sustentação do atual prefeito, então nada mais conveniente que paz esteja reinando, mesmo que o povo esteja Gritando.     

                

Cenário da Infra-estrutura

 

Urbanisticamente falando Bayeux não foi uma cidade planejada, trate-se de cornubação urbana, com uma topografia complexa e uma geografia social visivelmente injusta. Mas isso não tira a responsabilidade do gestor público de se esquivar dos problemas latentes que vem se arrastando por anos, vejamos, o caso da duplicação da subido do Aeroporto. Aquela obra já vai fazer dois anos e continua travada na procrastinação, sendo o nosso principal cartão de visitas ao turista do Brasil e do Mundo. 

 

O Mercado Público de Bayeux é pura evidencia que a vigilância sanitária é ineficaz, pois imundice e desorganização é o retrato daquele espaço de convivência social e sustentabilidade econômica. Ainda no mercado pode-se identificar outra mazela que é a inexistência de Saneamento Básico, que o próprio site institucional da Prefeitura divulgou, meses anteriores, que os próximos anos mais de 80% da cidade vai ser saneada, espero ansiosamente por isso. Enfim, são muito os problemas evidenciados a exemplo da coleta de lixo desregulada, espaços urbanos esquecidos, a exemplo da Praça 6 de Junho que passa por processo de reforma inacabável, servindo até de chacota por populares.

 

E a principal artéria veicular, hummm, a avenida Liberdade é um verdadeiro caos urbano hilariamente travada em congestionamentos, que ainda neste ano ganharia uma ciclovia para melhorar o trafego de pessoas e trabalhadores da cidade. Promessa de campanha do excelentíssimo Prefeito. “Recordar é viver”.

 

E a saúde de Bayeux é o reflexo do complexo hospitalar São Domingos, anda na UTI. São PSFs com falta de equipamentos, poucos médicos para assistir ao povo, demora na marcação de exames, enfim.               

        

Cultural não é festa    

É freqüente a associação da cultura ao entretenimento. Entretenimento é distração, é diversão, é divertimento, é abobrinha. Cultura é outra coisa que remete as marcas simbólicas expressas nos saberes e fazeres de uma determinada comunidade. Isso é o que a cidade de Bayeux vem propagando nos quatros cantos. Vejamos o impacto da atração principal que não passou de propagando enganosa, falo de “Aviões do Forró” que não vai pousar no CarangaFest. Aliás, será que a ligação de Bayeux com a cultura francesa é apenas o nome?

 

Então, Bayeux merece comemorar o seu meio século de emancipação com expressões culturais, como Duquinha, Luciene Melo, Caceteiros do Forró, Styllus, Brilho da Paixão, Cavalo de Pau, Dj marcílio, Charles Nigro e a Banda Delírios. Antecipando, não sou contra a nem um tipo desses grupos, mas acredito que poderia ser melhor.

No entanto, isso integra a 
d
iversão, euforia, agitação características pulverizada pela industria do entretenimento, muito íntima da política do “pão e circo” que serve muitas vezes estrategicamente de manobra de manipulação dos governantes que consiste em discutir o que não é importante para ocultar o que é realmente relevante. É interessante ligar esses sentidos e imaginar que o regozijo da diversão pode ser, então, algo extremamente prazeroso, mas não exatamente para todos.

Sou obrigado a retomar palavras expressas no artigo sobre cultura versus entretenimento “Abra a mala e solta o som”. Voltando ao eixo claro que cultura não deve ser entendida como entretenimento. Há uma inevitável angústia na vivência cultural. Uma idéia inédita e sagaz é capaz de tornar toda a nossa construção sobre identidade ou “visão de mundo” incomodamente obsoleta e esdrúxula. Até mesmo nossos desejos se tornam empoeiradas peças de museu quando nos defrontamos com o dissenso inteligente.

O contato com a cultura é devastador e, definitivamente, não combina com “ficadas”, cervejadas, cocaína e axé music, muito menos com o surrado, repetitivo e nada criativo rock’n’roll. Cultura não é diversão, não promove a mediocridade. Não quer desviar a atenção, não almeja o diversionismo. 

Isso não significa que a alegria e a festividade não possam compor a vivência cultural. A festa é culturalmente orgástica quando oferece efetivamente uma representação da vitória do brilho contra a escuridão, da sabedoria e do vigor contra a estupidez e a impotência. A cultura não é feita para divertir, mesmo quando é divertida. Quer ir além disso: pretende incomodar, transformar, chamar à responsabilidade de um compromisso com a vida. Assim, o divertimento é o tempero da mensagem, não a mensagem. 

Talvez o dito que melhor expresse como se dá essa relação nos seja dado pelo poeta russo Maiakovski que escreve “Primeiro, é preciso transformar a vida, para cantá-la em seguida”. E é por isso, também, que entender cultura como entretenimento é sinal de inescrutável burrice ou de insanável má-fé.

Portanto, caro leitor respeito às autoridades do nosso município, no entanto, não posso se esquivar de evidencias claras aos nossos olhos. Reflita mais uma vez, o que comemorar nesses 50 anos.    


*Gutemberg de Lima Davi

 
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GUTEMBERG DE LIMA DAVI

Tecnólogo em Geoprocessamento (IFPB/CEFETPB)
Graduando em Comunicação Social (UFPB)
Assessor de divulgação/cultura do SESC-PB

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