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Cultura versus Entretenimento - “Abra a mala e solta o som” Imprimir E-mail
28-Out-2009

É freqüente a associação da cultura ao entretenimento. Aliás, tem sido comum resumir cultura a entretenimento, como se a cultura fosse passível de ser entendida como uma música no bar, ou mesmo com “abra mala e solta o som”, freqüentar uma casa de shows ou a ir “atrás do trio elétrico”, isso sem falar, no campo literário, dos famigerados best-sellers (auto ajuda) e dos doutores em conceituações simplórias e enviesadas. Entretenimento é distração, é diversão, é divertimento, é abobrinha. Cultura é outra coisa que remete as marcas simbólicas expressas nos saberes e fazeres de uma determinada comunidade. 

Diversão, euforia, agitação são característica pulverizada pela industria do entretenimento, muito íntima da política do “pão e circo” que serve muitas estrategicamente de manobra de manipulação dos governantes que consiste em discutir o que não é importante para ocultar o que é realmente relevante – e, em um uso militar, significa uma “ação que tem a finalidade de desviar a atenção do inimigo”. É interessante ligar esses sentidos e imaginar que o regozijo da diversão pode ser, então, algo extremamente prazeroso, mas não exatamente para todos.

O pão e circo tem suas raízes na Roma antiga, quando os Imperadores costumavam coibir revoltas populares ofertando comida e lutas sangrentas nos circos. Com isso o povo, quase dizimado pela fome nos campos e que invadia a cidade em busca de alimentos, festejava e esquecia suas dores.

Será que devemos culpar os imperadores ? Seriam eles os grandes responsáveis pela alienação do povo? Certamente os imperadores da antiguidade semeavam nos corações incautos os germens da ignorância através dessas ações de entretenimento e, por conseqüência, do erro. Porém, num pequeno laboratório interiorano, onde algumas centenas de pessoas reuniam-se para assistir ao espetáculo, pudemos observar que em matéria de gostos e tendências, muitos ainda se acomodam nos limites da barbárie, apesar dos tantos séculos já idos. Luta, música barulhenta e urros animalescos mantinham os olhos daquelas pessoas na arquibancada vidrados e em êxtase.

Não é por outro motivo que as telenovelas e os telejornais sangrentos e viciosos fazem tanto sucesso. Também não é com outro objetivo que políticos e empresários mal intencionados continuam a usar a política do pão e circo enfatizando: O povo quer. O povo pede. O povo aceita.

O povo que não estuda a própria história com a intenção de mudar seus passos. Repete incessantemente os mesmos erros, colhendo os mesmos frutos da árvore de sua ignorância, perdendo seus dias entre lamentações e impropérios, pensando que nada pode fazer e que a culpa é apenas do governo.


Na cultura do eventos as expressões divertidas e sensuais das tribos urbanas e seu grande corpo coletivo, vem vivenciado nos shows musicais, nos festivais e nas comunidades simuladas dos bares, na potencialidade revolucionária da orgia e outras idéias. Há quem lucre ao transformar a vida numa triste gargalhada.
 

Voltando ao eixo claro que cultura não deve ser entendida como entretenimento. Há uma inevitável angústia na vivência cultural. Uma idéia inédita e sagaz é capaz de tornar toda a nossa construção sobre identidade ou “visão de mundo” incomodamente obsoleta e esdrúxula. Até mesmo nossos desejos se tornam empoeiradas peças de museu quando nos defrontamos com o dissenso inteligente.

O contato com a cultura é devastador e, definitivamente, não combina com “ficadas”, cervejadas, cocaína e axé music, muito menos com o surrado, repetitivo e nada criativo rock’n’roll. Cultura não é diversão, não promove a mediocridade. Não quer desviar a atenção, não almeja o diversionismo. 

Isso não significa que a alegria e a festividade não possam compor a vivência cultural. A festa é culturalmente orgástica quando oferece efetivamente uma representação da vitória do brilho contra a escuridão, da sabedoria e do vigor contra a estupidez e a impotência. A cultura não é feita para divertir, mesmo quando é divertida. Quer ir além disso: pretende incomodar, transformar, chamar à responsabilidade de um compromisso com a vida. Assim, o divertimento é o tempero da mensagem, não a mensagem.
 

Talvez o dito que melhor expresse como se dá essa relação nos seja dado pelo poeta russo Maiakovski que escreve “Primeiro, é preciso transformar a vida, para cantá-la em seguida”. E é por isso, também, que entender cultura como entretenimento é sinal de inescrutável burrice ou de insanável má-fé.

 
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GUTEMBERG DE LIMA DAVI

Tecnólogo em Geoprocessamento (IFPB/CEFETPB)
Graduando em Comunicação Social (UFPB)
Assessor de divulgação/cultura do SESC-PB

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